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"Ser gordo não é opção. É destino." Quem afirma é o endocrinologista Alfredo Halpern, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto obesidade. Aqui, ele explica por que às vezes é tão difícil emagrecer.
Alfredo Halpern - Não. Muitas vezes, a pessoa gasta poucas calorias, ou acumula gordura com mais facilidade. Há, ainda, organismos que têm dificuldade de utilizar gordura como fonte de energia. E tudo isso pode ter causas biológicas.
MC - O que regula o apetite?
AH - O fato de alguém comer mais ou menos depende de, no mínimo, 50 substâncias que circulam no sangue, no cérebro, no tubo digestivo...
MC - Há causas genéticas?
AH - São muitas variantes e todas reguladas por diferentes genes. Um desbalanço em determinado gene pode criar uma necessidade de comer açúcar que só algumas pessoas sentem, assim como um desequilíbrio genético de outra espécie faz com que alguém tenha uma fome voraz. E não é sem-vergonhice, é fome de verdade.
MC - Nesses casos, é impossível emagrecer?
AH - Há quem não consiga, mesmo levando uma vida espartana... Poucos têm algum sucesso à custa de muito esforço ou de intervenções cirúrgicas. É preciso lutar contra forças químicas, metabólicas, hormonais e neurológicas, comandadas pela genética e facilitadas pelo meio em que vivemos. Até a capacidade para atividades físicas tem a ver com genética. Hoje já se sabe que o bebê de uma mulher gorda se movimenta menos do que o filho de uma magra. E assim será, por toda a vida.
As formas arredondadas e volumosas surgiram naturalmente quando a baiana Eliana Kertesz começou a trabalhar com argila, há 12 anos. Hoje, a artista plástica é conhecida como a 'Botero' brasileira, com suas esculturas de mulheres gordas e sensuais, feitas com bronze, terracota, alumínio e resina. 'Odeio a ditadura da beleza magra, e protesto através dessas formas fartas. As esculturas são o meu jeito de dizer que o gordo também é belo', diz. Para Eliana, uma mulher que se diz nem gorda nem magra, o problema só existe quando a própria pessoa sofre com a gordura. 'Mas não tem cabimento a gente se incomodar só porque está incomodando os outros. O que estamos vivendo hoje em dia é um patrulhamento.
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NÃO É PREGUIÇA
“A herança da tendência à obesidade não é diferente daquela que explica por que existem pessoas altas e outras de baixa estatura. Num mundo sedentário, com alimentos deliciosos ao alcance da mão, considerar a obesidade um problema de caráter é pura ignorância. Perder peso é empenhar-se numa batalha contra a biologia da espécie humana. Só os obstinados são capazes de vencê-la.”
Drauzio Varella ('Folha de S.Paulo', em 2004)
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Bochechuda e visivelmente mais cheinha. Foi assim que a atriz Renée Zellweger incorporou a famosa Bridget Jones, personagem que traduzia as angústias da mulher moderna -sempre às voltas com o primeiro dia da dieta, o último cigarro e a falta de namorado. Gordinha nesse filme, Renée reapareceu magérrima em 'Chicago' para interpretar a problemática Roxie. Como ela, muitos atores engordam e emagrecem a cada filme. E, para o público, fica a falsa impressão de que é fácil controlar a balança. “Mas isso só é possível quando a pessoa não tem tendência para engordar”, diz o endocrinologista Márcio Mancini. Quem não se encaixa nesse time é duplamente prejudicado: além da frustração pessoal, esse efeito ioiô das telas reforça o mito do 'só é gordo quem quer' na vida real.
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SUCESSO FORA DOS PADRÕES DA TV
"Nas novelas, tem gente que enfeita a história, e tem gente que conta a história. Acho que estou no segundo time", diz a atriz Vera Holtz, que saiu no bloco da baiana Margareth Menezes vestida de "XL Bundchen", no último carnaval. "A avenida é o lugar onde dá para brincar com isso. "E esse também é um jeito de defender as gordinhas", diz. Na televisão desde 1988, Vera nunca se sentiu prejudicada por causa do manequim 46. "A rua é mais cruel. As pessoas dizem que pareço muito mais magra na televisão. E olha que a telinha engorda!", diz. No papel de Ornela, na novela 'Belíssima', a atriz faz sucesso. "Acho que ela é popular porque está mais perto da realidade da mulher brasileira."
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SENTADA, COM UM BALDE DE PIPOCA
Além da herança genética, ser gordo tem a ver com o modo de vida. 'Os hábitos modernos promovem a obesidade. As pessoas passam a maior parte do tempo sentadas, a automação resolve quase tudo e, o que é pior, hoje os alimentos são mais calóricos e as porções aumentaram. O antigo saquinho de pipoca virou um balde', diz Anete Hannud Abdo, endocrinologista do PRATO -Programa de Atendimento ao Obeso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. As mulheres que se tratam lá acreditam que a gordura é a causa de fracassos na vida amorosa, de frustrações profissionais e de todas as infelicidades. 'Parte do nosso trabalho é tentar inverter essa lógica, mostrando que a solução desses problemas é que pode ajudar a emagrecer.
COMO AS GORDAS SE MOBILIZAM NOS EUA
As integrantes do Fat Action Troupe AllStar Spirit Squad são mais que simples líderes de torcida: além de animar os jogos, elas agitam os estádios com sua luta pelo direito de não ser magra (www.fatasspdx.com).
As Padded Lilies formam um grupo diferente de nadadoras: são mulheres gordas, especializadas em nado sincronizado, que defendem a idéia da boa forma em qualquer 'tamanho' (www.paddedlilies.com).
Formado por artistas gordos, o grupo The Original Fat-Bottom Revue excursiona pelo país mostrando o lado sexy da obesidade (www.bigburlesque.com)
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Na temporada de desfiles de 2005, o estilista John Galliano escolheu apenas tipos fora do padrão para mostrar sua coleção - gordinhas, anãs, esqueléticas, gente mais velha e mais nova, mostrando que o mundo abriga muitas variedades além das modelos altas e magérrimas. Isso não significa, porém, que os dias da ditadura estética estejam contados. "O que se vende é a imagem da modelo esbelta ou da gostosona da novela. O mercado muitas vezes é cruel, assim como é da natureza humana a exclusão de determinado grupo", diz a estilista mineira Graça Ottoni. Para ela, fazer roupas para mulheres gordas é difícil, assim como para qualquer um que fuja do padrão. "Trabalhamos em série. Uma pessoa muito alta ou muito baixa também deveria ter uma roupa feita sob medida", afirma a estilista, que confecciona até o número 46. O estilista Lino Villaventura já criou até vestido de noiva para uma cliente com mais de 100 quilos. "Mas é complicado confeccionar em grande escala por causa das proporções. Tem quem seja mais cheinha nos quadris; para outras, o problema está no busto. A modelagem não pode ser padronizada", diz Lino. Há, ainda, outro motivo: segundo ele, as próprias mulheres não gostam de ver roupas enormes na loja. "Mesmo quem é gordinha quer vestir roupa de magra. O preconceito não é declarado, mas existe, como no caso dos negros, dos nordestinos e tantos outros grupos."
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A atriz Nívea Stelmann controlou a dieta durante a gestação. O medo de ser taxada de gorda ronda as mulheres também durante a gravidez, um período em que as curvas generosas poderiam ser encaradas com mais condescendência. Segundo o ginecologista Renato Kalil, de São Paulo, mulher não perde mais do que 5 quilos assim que o bebê nasce - o restante vai exigir dieta e exercícios. Dependendo da urgência, tem quem recorra à lipoaspiração - foi isso o que a atriz Giovanna Antonelli decidiu fazer, oito meses depois do nascimento de Pietro, para complementar a perda dos 20 quilos que ganhou durante a gravidez. Para as grávidas famosas, aliás, a pressão para entrar logo no jeans é ainda maior. A atriz Nívea Stelmann, de 31 anos, nunca havia se preocupado com o peso, até engordar 6 quilos nos primeiros três meses da gravidez. Foi quando decidiu prestar mais atenção na dieta. "Eu me irritava porque os figurinos da novela ficavam apertados. Além disso, tinha de lidar com a falta de delicadeza das pessoas que não pensavam duas vezes para dizer que eu tinha engordado muito ou para mencionar o meu 'bochechão'. Chorei muitas vezes." Nívea engordou 14 quilos no total. Logo depois que Miguel nasceu, a atriz voltou à malhação e fez drenagem linfática. "Com tudo isso e a amamentação, perdi peso rapidamente. E passei a ouvir: 'Que incrível, como você está magra!'. Poucos me perguntaram se eu estava me saindo bem como mãe. A admiração vinha por outro lado. Fazer o quê? O mundo funciona assim."
Giovanna Antonelli fez lipoaspiração depois do parto
(Valéria Martins)
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MILITÂNCIA VIRTUAL
No endereço www.magnuscorpus.com.br, a discriminação é o principal tema. O site é o representante brasi- leiro do ISAA - International Size Acceptance Association, instituição norte-americana que orienta e defende as pessoas contra o preconceito.
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MAIS GORDINHAS
Em 1975, a obesidade atingia apenas 3% dos homens e 8% das mulheres no Brasil. No último levantamento feito pelo IBGE, em 2003, esses números pularam para 9% e 13%, respectivamente. Hoje, 39 milhões de brasileiros estão acima do peso e, destes, 10,5 milhões são obesos.
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VOCÊ TEM PRECONCEITO CONTRA AS MULHERES GORDAS?
9.405 leitoras responderam ao questionário online preparado por Marie Claire
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ESTÁ PROVADO: OS GORDOS GANHAM MENOS
Cada ponto a mais no índice equivale a R$ 92 a menos no salário, em cargos de gerência. "Talvez isso aconteça porque a pessoa gorda é associada à idéia de lentidão no trabalho, isto é, menor produtividade", explica Case. Além de ganhar menos, os gordos geralmente perdem na hora da seleção. Segundo uma pesquisa feita pelo grupo Catho, em 2005, 65% dos diretores de empresa admitiram ter alguma objeção em contratar pessoas gordas. "Não levantamos os motivos. Mas, na minha opinião, quem tem o desleixo de engordar também vai ser desleixado no trabalho. Isso pode justificar a rejeição", diz Thomas Case, fundador do Grupo Catho.
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Única no gênero, a revista virtual www.criaturagg.com.br conta com 3.200 leitores cadastrados. Dirigido por Kátia Ricomini, o site informa, por exemplo, como é possível requisitar um cinto de segurança mais longo no carro ou como obter a carteirinha que dispensa a passagem pela catraca nos ônibus. "Ninguém precisa passar por essa humilhação", diz.
FOTOS: REPRODUÇÃO/ARNALDO MAGNANI (GETTY IMAGES)/KEVIN WINTER (GETTY IMAGES)/MARK MAINZ (GETTY IMAGES)/DIVULGAÇÃO/MÔNICA IMBUZEIRO (AGÊNCIA O GLOBO)/OTHER/FRANÇOIS GUILLOT (AFP)/KATIA RICOMINI/CAMOMILAH, DIVULGAÇÃO/MARCELO CORREIA (DIVULGAÇÃO)/GABRIEL REIS AGRADECIMENTO: FNAC (ILUSTRAÇÃO BOTERO)
Matéria da Revista Marie Claire do mês de abril de 2006.